Crescer … ou a sequência dos números

Crescer é a coisa mais natural da vida. Crescemos desde o exacto momento da concepção. Ninguém estranha que assim seja! Crescemos fisicamente (a olhos vistos, nalgumas idades), crescemos cognitivamente, crescemos socialmente e é bom que cresçamos também nas nossas competências relacionais.

Todas as crianças e jovens percebem que crescem: hoje têm que ir buscar a cadeira para chegar às bolachas que estão em cima da banca da cozinha, amanhã já basta porem-se em bicos de pés, daqui por uns tempos a mãe já as esconde no armário mais alto da cozinha e, mesmo assim, não ficam lá seguras por muito tempo. Também nós nos apercebemos do crescimento dos nossos filhos: As calças que comprámos há meia dúzia de dias já lhes ficam pelo meio da perna, os ténis que nos custaram os olhos da cara já nem nas orelhas lhes servem, os amigos lá de casa não resistem à originalidade de dizerem: “Estás velha! Olha para o tamanho do miúdo!”.

Noutros aspectos o crescimento é também visível: Hoje apenas lhe saem algumas ecolálias: papapapa … mamamamama … tatatatata etc… Em meia dúzia de dias já diz coisas que se entendem (embora ainda numa língua muito aproximada do chinamarquês): titinho, pamênão, etc.

Mal nos distraímos já saem frases inteiras e perfeitamente perceptíveis: Não tero ête vetido. Tero i pa tasa davó! E por aí fora até começarem a falar em bits, bytes e gigabytes! (E, às vezes, nesta fase a linguagem deixa outra vez de ser perceptível para os pais, mas isso são contas de outro rosário que não é para aqui chamado!).

As crianças com problemas graves provocados por um qualquer tipo de deficiência não fogem a esta regra universal: Crescem como todas as outras! Dia após dia somam ao seu reportório de conhecimentos novas aprendizagens. Muitas podem fazê-lo a um ritmo mais lento que outras, mas a sua interacção com os colegas, com os educadores ou professores, com os materiais que o Jardim de Infância ou a Escola lhe proporcionam, vão-lhe permitindo estruturar conhecimentos cada vez em maior número e ajudando-as, dia após dia, semana após semana, mês após mês, a fazer novas associações e novas generalizações. Muitos meses juntos (12 de cada vez) formam anos. Esses anos sucedem-se e estas crianças deixam de ser crianças e passam a ser jovens. Reparem que tudo isto tem uma lógica de progressão, de sucessão de tempo e acontecimentos que faz sentido. Quando as crianças começam a contar, fazem-no inicialmente de uma forma mecânica, muitas vezes ainda sem ligarem o número que verbalizam à quantidade que ele indicia… 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 etc., etc.. O percurso escolar também tem esta lógica de progressão: 1º ano, 2º ano, 3º ano, 4ºano (1º ciclo) – 5º ano, 6º ano (2º ciclo) – 7º ano, 8º ano, 9º ano (3º ciclo). Este percurso começa, para os alunos, ainda crianças pequenas (5-6 anos) e acaba já com jovens namoradeiros(as) de barba na cara ou faces maquilhadas.

Faz sentido, tudo isto. Percebe-se que é assim que é natural, entende-se a lógica do sistema, a lógica do crescimento.

O que não tem lógica nenhuma é que, quando uma criança apresenta graves problemas cognitivos, muita gente acredite que deve alterar este fruir do tempo e do espaço. E começa-se por lhe alterar a idade para entrar na escolaridade obrigatória: Fica mais um ano no Jardim de Infância a pedido dos pais e com a concordância dos técnicos. Todos convictos que é o melhor para criança em questão, porque esta ainda necessita de alguma maturidade e mais alguns pré-requisitos para enfrentar aquele passo de gigante que é a passagem crítica do J.I. para o 1º ano de escolaridade. Permitimo-nos (nós que somos ingénuos) pôr aqui algumas perguntas: O que se pretende com este adiamento – poupar as crianças ou poupar os professores? Será que a maturidade, as capacidades, os pré-requisitos necessários não se sabe bem para quê que a criança vai adquirir nesse ano a mais compensam a separação dos colegas de sempre? Será que um professor do 1º ciclo, que deverá saber responder a grupos em fases de desenvolvimento tão distintos como as crianças de 5 anos que entraram para o fotos amateur, 11 anos que estão de saída não daria também conta do recado? Será que, talvez de uma forma demasiado maternal, não estarão os técnicos a contribuir para uma infantilização e um reforçar do atraso social e relacional dessa criança?

Pensamos que muitos dos adiamentos no início da escolaridade para crianças com déficit intelectual acentuado não só não se justificam como podem ser prejudiciais ao tal crescimento que deve ser natural e o mais harmónico que for possível. Quando as diferenças a nível cognitivo são muito grandes, parece-nos evidente que é nossa obrigação tentar não agravar essas diferenças nos níveis social, relacional e no comportamento adaptativo.

Este mesmo princípio parece-nos válido para o decorrer da escolaridade. Com diagnósticos e avaliações centradas em itens quase exclusivamente académicos, o princípio da sucessão normal dos números é radicalmente alterado, e a progressão da criança no 1º ciclo passa a ser mais ou menos assim: 1º ano, 2º ano, 2º ano, 3º ano, 3º ano, 4º ano, 4º ano. Que estranha progressão!

Quantas vezes esta criança não conheceu 6 ou 7 professores diferentes na sua turma e outros tantos nos apoios educativos! Entretanto, os seus colegas e amigos vão ter que ir mudando. Ele que, normalmente, já apresenta graves problemas de adaptação a situações novas, vê esses problemas agravados porque a estabilidade do grupo a que pertence é anualmente alterada e, com o fundamento de que ainda não está preparado não se sabem bem para quê, vão-lhe aumentando a terrível solidão de estar no meio de uma turma a repetir indefinidamente aquilo que nunca aprendeu a fazer e que não sabe para que serve!

Analisemos objectivamente um facto concreto: Será que uma criança com um déficit intelectual acentuado que, aos 10 anos, só aprendeu a somar quantidades até 8 ou 10 e com material de concretização e só lê meia dúzia de palavras que já decorou de tantas letras juntar, vai ganhar alguma coisa em passar mais dois ou três anos nessa escola? Se as preocupações são as do cumprimento do programa….. pelo ritmo das aprendizagens ele irá cumprir o programa do 2º ano aí aos 30 anos! Não faz sentido nenhum! Não tem lógica! E já repararam na pobreza que é o currículo dum aluno destes se estiver limitado aos conhecimentos académicos constantes do programa oficial?

Pensemos um pouco, por favor, e assentemos os pés no chão: Se o esforço que a escola fez dirigido a um aluno se centrou, durante 6 ou 7 anos, em objectivos académicos e esse mesmo aluno não conseguiu aprender um mínimo aceitável face a uma avaliação tradicional, será que esse não foi um esforço perfeitamente inglório para a Escola e um verdadeiro massacre para o aluno? Escrevamos num papel aquilo que o aluno aprendeu esses anos todos e facilmente nos vamos aperceber que o currículo dele foi paupérrimo e que, objectivamente, todos os outros factores fundamentais para o crescimento desse aluno – experiências novas e diferentes, manutenção do grupo de amigos, frequência de novos ambientes, comportamento adaptativo adequado à idade, etc. – foram esquecidos.

Não vamos hoje tirar mais conclusões. Queremos apenas deixar tudo isto aqui escrito para, se possível, ajudar a pensar. E, em nossa opinião, a linha de base para pensarmos a progressão dos alunos com déficits intelectuais acentuados deve ser o conceito de crescimento e a sua lógica que explanámos na primeira parte deste artigo.

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